SIGNIFICADO DA COR PRETA: O ARQUÉTIPO DA CAVERNA

Durante 400 milhões de anos os nossos ancestrais biológicos refugiavam-se nos buracos, nas tocas e nas cavernas, para se protegerem dos perigos que os ameaçavam. Foi aí, nesse ambiente de pouca ou nenhuma luz, que o psiquismo das espécies ensaiou os primeiros insights de expectação, introspecção e cálculo, exigidos pela necessidade de permanecerem atentos aos acontecimentos que se desenrolavam fora da caverna, uma disposição de espírito que foi incorporada à memória filogenética vinculada à cor preta.   

Foi nesse ambiente escuro,  que o psiquismo dos nossos ancestrais começou a ensaiar as primeiras operações de cálculo e previsão  dos eventos, de cujos acertos dependia a  própria sobrevivência da espécie. “Enquanto o cão ladra a raposa não sai da toca”,  eis em forma de adágio um ensinamento, que a inteligência evolutiva parece ter impressa no ser dos animais, tanto quanto no ser do próprio homem.

A vida é um fenômeno de luz, e foi assim que a evolução da vida articulou os seus processos e mecanismos, inventando organismos, adaptando estruturas e criando estratégias. Tudo sob a luz do sol! A vida é o que é, em presença da luz. As mudanças  metabólicas que durante a noite se processam no organismo das criaturas vivas, e os respectivos ajustes homeostáticos necessários,  dão a medida precisa da importância da luz para o bom funcionamento dos esquemas da vida.

Na escuridão nós andamos às apalpadelas, orientando-nos a partir de dentro de nós mesmos, tentando adivinhar o que está ao nosso redor, e fazemos estimativas sobre a sua proximidade, o seu tamanho, etc. Atuando sobre o psiquismo humano, a cor preta estimula e dinamiza a capacidade de fazer estimativas e previsões sobre coisas e os acontecimentos, eis a nossa herança filogenética em forma de Psicodinâmica das Cores!  

“O choro poderá durar a noite inteira, mas a alegria virá pela manhã”, nós lemos isso em algum lugar do Velho Testamento.  Aqui,  a noite tem o significado de um lugar psíquico, no qual, em estado de expectação, o espírito desenvolve a capacidade  de fazer estimativas sobre coisas e acontecimentos futuros. A  percepção da cor preta dá ao espírito o poder de raciocinar sobre cenários e acontecimentos futuros, utilizando elementos e fatores que no  momento ainda não se encontram presentes no ambiente.

Lá no interior das tocas e das cavernas – cada um com os recursos possibilitados pelo psiquismo da sua respectiva espécie – os nossos ancestrais biológicos e hominídeos faziam cálculos e cogitações sobre os acontecimentos ameaçadores lá fora, embora nada podiam perceber. É precisamente isso que nós também  fazemos durante a noite, quando então parece que somos capazes de fazer cogitações e previsões com mais acertos. 

Por isso, mais do que um evento cósmico de sucessão, para o espírito a noite é um evento cósmico de precessão, daí,  prenhe de cogitações, estimativas, previsões e hipóteses sobre o que virá com o dia seguinte. Esta qualidade da cor preta de significar um mundo sem exterioridade cósmica e sem percepções desenvolve no psiquismo humano a tendência para as cogitações, para as estimativas e previsões.

Provavelmente mais de uma vez você já viveu essa experiência psíquica, pela qual  antecipou com acerto coisas e acontecimentos do dia seguinte, por causa das faculdades especiais de previsibilidade que a noite parece  despertar no espírito. “O travesseiro é bom conselheiro”, ouvimos com frequência  esse dito popular, para nos ensinar que, dentro da nossa caverna ontológica – a noite – com mais eficácia exercemos  o nosso poder  de fazer estimativas, e de nos prepararmos para os acontecimentos do dia que virá pela manhã. O poder psíquico da noite, transferido para a percepção da cor preta, ativa no indivíduo a capacidade da previsão e da antevisão dos acontecimentos futuros.   

Na filosofia cartesiana o conceito de Cogito tem uma função fundamental, e significa a existência do eu como a única realidade existente, a grosso modo. A escuridão, fazendo desaparecer as percepções visuais, deixa o homem a sós com o seu eu – a sós com o seu Cogito – que significa a experiência de existir sem a presença da realidade externa, e consequentemente   sem as percepções externas do mundo físico.

É justamente esse processo que produz a nostalgia existencial do pôr do sol, experimentada universalmente, quando então  só o nosso espírito com suas reminiscências e cogitações nos acompanha nesse admirável  momento de transição cósmica da luz para a ausência de luz. Depois do entardecer sobra apenas o eu do homem, o seu Cogito.

Invariavelmente nós fechamos os nossos olhos para fazermos cálculos, para nos lembrar de alguma coisa ou para pensarmos com clareza, um hábito universal entre os povos. Por que nós fazemos isso, se não para – ao fecharmos os olhos – nos recolhermos na nossa caverna ontológica, e deste modo despertar nela  as nossas faculdades de previsão, de antecipação e de cálculo?

 Por que nós fechamos os olhos para fazermos cálculos, se não  para ficarmos a sós com o nosso em-si, com o nosso Cogito, e assim  procedermos ao esvaziamento do nosso ser para assim podermos   ter as chamadas ideias   claras e distintas  necessárias às intuições verdadeiras, como nos ensina Descartes? 

Você também deve fechar os olhos quando precisa fazer cálculos precisos, e isso é feito para buscar na escuridão, por trás das pálpebras cerradas – na caverna ontológica – os poderes do cálculo, da previsão e da estimativa, dinamizados pela cor preta em forma da  escuridão produzida pelos olhos fechados.

É importante saber sobre isso: você não deve achar que a cor preta desenvolve em sua mente um especial poder de calcular. Não é isso que nós estamos dizendo. A capacidade de fazer estimativas e previsões, possibilitada pela cor preta, advém das condições psíquicas adequadas de recolhimento, interiorização e introspecção que essa cor  proporciona. 

Você não se torna melhor em matemática, por exemplo, somente porque introduz a cor preta no seu cotidiano visual. Mesmo sob essa condição psíquica  privilegiada oferecida pela cor preta, a capacidade de calcular não fica maior, se você não se empenhar no estudo desta disciplina.    

 Sobre os cantos da casa – onde nós “gostamos de confabular com nós mesmos”, e onde o “tempo é feito de silêncio de pensamentos”, nas palavras  de Gaston Bachelard – nós podemos dizer que esses lugares de luz frouxa criam a condição psiquicamente adequada para nós ficarmos a sós com o nosso Cogito, e assim podermos fazer as nossas cogitações  e previsões,  sobre os desfechos das nossas atividades e relacionamentos.  

 Nos ambientes a cor preta nos empurra para o interior da nossa caverna psíquica, onde buscamos a melhor condição para os cálculos e estimativas, sobre coisas e acontecimentos futuros ou distantes de nós, quando então  desenvolvemos um comportamento de cautela e prevenção contra riscos, eventualidades e possibilidades.

 Sob a influência da cor preta, o espírito permanece em estado de vigília, circunspectamente atento a qualquer coisa ou acontecimento, tornando-se cauteloso e preventivo. Nessa condição psíquica, qualquer aspecto da atividade ou do relacionamento é considerado com atenção, pois para o nosso psiquismo ele traz algo oculto. Em presença da cor preta, as pessoas tendem a se tornarem circunspectas e preventivas.

 Atenção: Se você abrir a porta do seu guarda-roupa, e constatar que a presença de muitas roupas pretas, isso significa que algo importante vai acontecer na sua vida, que poderá ser uma mudança de cidade ou de trabalho; o início ou fim de um relacionamento amoroso; uma experiencia existencial profunda; a experiência da maternidade ou da paternidade.

 O uso freqüente de roupas pretas indica o processo subliminar, pelo qual o espírito está buscando a caverna ontológica como o ambiente adequado,  para aí poder fazer cálculos e cogitações sobre essa mudança futura. Essas roupas pretas são anúncios e presságios!

 

Trecho tirado do livro “O Efeito Psíquico das Cores nos Ambientes”